Por Willian Luiz da Conceição, acadêmico de História e militante do PSOL Joinville
A medida da Prefeitura Municipal de Joinville de proibir manifestações populares, no tradicional desfile de 9 de março, aniversário de 159 anos da cidade representa a volta de uma história de contradições incontestáveis com a conjuntura que vive a cidade. Será que voltamos a 64?
Há quase 46 anos o Brasil era tomado de assalto pelo regime autoritário implantado em 31 de março de 1964 pelas Forças Armadas, juntamente com forças políticas de oposição ao governo de João Goulart.
Diversas medidas foram tomadas no período em nome da segurança nacional contra inimigos como o comunismo. Entre estas medidas foram institucionalizadas a cassação de direitos políticos, o fim do direito de defesa e qualquer tipo de manifestações foram criminalizadas e reprimidas.
Assim se estabelecia a tortura e a censura está ultima proibiu toda e qualquer exibição em território nacional de filmes, reportagens, fotos, transmissão de rádio e televisão, que mostrassem atos que poderiam ser compreendidos como de oposição ao regime.
Estudantes, intelectuais, populares e artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e o próprio Lula foram presos acusados de subversão.
A censura foi um dos mecanismos de coação, repressão do livre pensamento e da liberdade. Carlito também afirma ter lutado contra a ditadura! Estranho é que, após a incapacidade do governo de Carlito Merss (PT) de dialogar com a população e com movimentos sociais da cidade temas como transporte coletivo e moradia ele se utilize das armas que sempre se opôs.
Lembremo-nos que o Partido dos Trabalhadores nasceu do combate ao autoritarismo, na luta pela democracia ampla e irrestrita. Infelizmente as contradições do PT lançam na lata do lixo seu histórico de luta.
A censura é um dos rostos da covardia, avessa a democracia que fez surgir o PT, os movimentos sociais conteporâneos. Infelizmente o PT abandonou a bandeira da democracia tudo a custa do poder a qualquer custo.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
De volta a 64!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
De volta ao infortúnio da censura
Por Eliton Felipe, professor de História e membro do PSOL Joinville
O som do bumbo, do trombone, do trompete, do trotar dos cavalos serão os únicos sons que poderão ser ouvidos no próximo dia 9 de março, durante o tradicional desfile de aniversário da cidade. Passados quase meio século do início de um período marcado pela repressão onde o sangue de civis banhava os porões da Ditadura e pela censura onde o silêncio era o som mais doloroso que se ouvia, o prefeito de Joinville, Carlito Mers (PT), volta a calar todo e qualquer manifesto contrário as medidas tomadas pelo seu governo nesses quase um ano e meio de mandato.
Estudantes, intelectuais, jornalistas, militantes de esquerda se unem, lembrando àqueles dias de correrias nas ruas, da cavalaria e dos tanques, das receitas de torta nos jornais ou dos encontros clandestinos criando planos para continuar a luta contra os ditadores. Em Joinville, durante muitos anos no mês de março foi assim, reivindicações eram expostas em cartazes e gritos de guerra. Não nesse ano. Dessa vez, esse acontecimento será arbitrariamente proibido.
O joinvillense que sofre com o transporte coletivo de péssima qualidade, pagando caro para ser tratado como lixo compactado, que vive uma eterna luta em busca de um lar, assistirá amordaçado o bloco dos “felizes” imigrantes germânicos.
No Brasil a enganação sempre esteve presente. Os ditadores anteciparam a comemoração de sua “revolução”, pois o fatídico 1º de Abril de 1964 seria cômico de mais até para os mais arrogantes componentes da direita governista. Usurpadores de nossos direitos, outrora tentaram calar até mesmo expoentes de nossa música como Caetano Veloso e Chico Buarque. Muito me intriga saber que alguém que se diz contra esses atos obscenos, que diz ter lutado contra o Terrorismo de Estado que precedeu sua vida política utilize as mesmas armas vulgares e mesquinhas.
O país vivia um período sombrio, quebrado apenas por uma réstia de luz. Um lampejo de esperança surgia com a criação de um partido. Pautado na luta pela liberdade de opinião, o PT teve grande importância na busca da redemocratização do país. Infelizmente não é o que temos visto nos últimos anos. Primeiro, a expulsão da ex-senadora Heloisa Helena, atualmente no PSOL, por discordar da posição do governo Lula. Agora, bem aqui, próximo de nós, a mesma censura, o mesmo cala-boca se faz presente e oportuno. Para o Governo, é melhor que se esconda a oposição, como os militares faziam, evitar o constrangimento de ser colocado a prova e de mostrar o descontentamento com a ineficiência de seus atos.
A censura é uma arma resgatada que faz com que aquela esperança devotada ao Partido dos Trabalhadores no ano de 2008 escorra por entre os dedos. Carlito abandonou a bandeira da luta democrática e agora, se faz presente em nossa cidade, a mesma cara que os Generais possuíam naquele maldito 1º de Abril.
O som do bumbo, do trombone, do trompete, do trotar dos cavalos serão os únicos sons que poderão ser ouvidos no próximo dia 9 de março, durante o tradicional desfile de aniversário da cidade. Passados quase meio século do início de um período marcado pela repressão onde o sangue de civis banhava os porões da Ditadura e pela censura onde o silêncio era o som mais doloroso que se ouvia, o prefeito de Joinville, Carlito Mers (PT), volta a calar todo e qualquer manifesto contrário as medidas tomadas pelo seu governo nesses quase um ano e meio de mandato.
Estudantes, intelectuais, jornalistas, militantes de esquerda se unem, lembrando àqueles dias de correrias nas ruas, da cavalaria e dos tanques, das receitas de torta nos jornais ou dos encontros clandestinos criando planos para continuar a luta contra os ditadores. Em Joinville, durante muitos anos no mês de março foi assim, reivindicações eram expostas em cartazes e gritos de guerra. Não nesse ano. Dessa vez, esse acontecimento será arbitrariamente proibido.
O joinvillense que sofre com o transporte coletivo de péssima qualidade, pagando caro para ser tratado como lixo compactado, que vive uma eterna luta em busca de um lar, assistirá amordaçado o bloco dos “felizes” imigrantes germânicos.
No Brasil a enganação sempre esteve presente. Os ditadores anteciparam a comemoração de sua “revolução”, pois o fatídico 1º de Abril de 1964 seria cômico de mais até para os mais arrogantes componentes da direita governista. Usurpadores de nossos direitos, outrora tentaram calar até mesmo expoentes de nossa música como Caetano Veloso e Chico Buarque. Muito me intriga saber que alguém que se diz contra esses atos obscenos, que diz ter lutado contra o Terrorismo de Estado que precedeu sua vida política utilize as mesmas armas vulgares e mesquinhas.
O país vivia um período sombrio, quebrado apenas por uma réstia de luz. Um lampejo de esperança surgia com a criação de um partido. Pautado na luta pela liberdade de opinião, o PT teve grande importância na busca da redemocratização do país. Infelizmente não é o que temos visto nos últimos anos. Primeiro, a expulsão da ex-senadora Heloisa Helena, atualmente no PSOL, por discordar da posição do governo Lula. Agora, bem aqui, próximo de nós, a mesma censura, o mesmo cala-boca se faz presente e oportuno. Para o Governo, é melhor que se esconda a oposição, como os militares faziam, evitar o constrangimento de ser colocado a prova e de mostrar o descontentamento com a ineficiência de seus atos.
A censura é uma arma resgatada que faz com que aquela esperança devotada ao Partido dos Trabalhadores no ano de 2008 escorra por entre os dedos. Carlito abandonou a bandeira da luta democrática e agora, se faz presente em nossa cidade, a mesma cara que os Generais possuíam naquele maldito 1º de Abril.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Carta ao MST SC
Militante do PSOL faz carta para dialogar com Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra propondo frente única social e política. Confira abaixo o texto de Willian Luiz da Conceição (ligaspartakus@gmail.com).
Aos camaradas do MST Santa Catarina,
Analisando a conjuntura nacional em meio a sua complexidade, agravada por estarmos às portas de mais um pleito eleitoral, apesar de não decorrer meramente por ser ano eleitoral, mas também pela desorientação, conformismo, frustração e “incapacidade” da esquerda de construir um novo projeto que aponte para o socialismo no Brasil, que venho dialogar e expor certos anseios em forma de desabafo e reflexão aos camaradas do MST de Santa Catarina.
É importante neste momento realizar uma análise histórica e de conjuntura que justifique uma nova tática. Muitos camaradas vêm discutindo o projeto original do PT, sua desvirtuação e a culminação de um longo processo político na eleição de 2002.
Em linhas gerais, é possível dizer que o PT nasceu da crítica ao antigo PCB e suas teses que indicavam uma pretensa “burguesia progressista”, ficção que a própria história deu cabo, mas também sem ver qualquer alternativa no trabalhismo ou em qualquer espécie de social-democracia, na humanização do capitalismo ou mera diminuição de suas desigualdades sem sua superação.
A prática negativa do PT indicava uma profunda relação com as bases dentro de suas instâncias, na organização popular nas lutas cotidianas, na criação de uma cultura classista e no apontamento de um socialismo democrático. O mesmo processo político que criou o PT também criou a CUT, o MST e a refundação da UNE. Todos esses agentes políticos apostavam no protagonismo da classe trabalhadora, reforçando a máxima segundo a qual "A emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora”.
Esse momento da história também tinha clareza quanto ao papel do pleito eleitoral e do caráter da participação das organizações populares nas eleições. O pleito servia para mobilizar os trabalhadores, denunciar as mazelas incuráveis do capitalismo e construir na consciência dos trabalhadores a ideia do socialismo. Por várias razões as eleições passaram a ser encaradas de modo diferente: servia a manutenção de estruturas do Estado que garantiam o funcionamento do PT e, ocasionalmente, ajudavam na melhoria da vida dos trabalhadores.
A eleição de 2002 serviu para deixar cristalinamente claro a mudança do projeto político do PT, que se processava, cada vez mais à direita, com avanços e recuos, desde sua fundação. O projeto de Lula não significou nenhum avanço rumo ao socialismo. A vitória eleitoral demonstrou a incapacidade de modificar a lógica e a estrutura social, econômica e política que sempre reinou desde a invasão européia neste território por dentro do Estado, por seu ganho progressivo e continuado. Ao contrário, mostrou apenas uma descaracterização do seu projeto inicial.
Este país não se modificou com a vitória de Lula a presidência da republica, o que vimos desde em tão é a manutenção e o reforço das políticas neoliberais. Da falta de uma política séria que resolva o déficit habitacional, que chega próximo de 9 milhões de residências, além da falta de emprego digno (aumento das terceirizações e desqualificação do trabalho), avanço das multinacionais, da degradação do meio ambiente, da corrupção, da utilização das forças armadas na destruição da soberania de outros povos, das mortes no campo brasileiro e da estagnação da reforma agrária entre outras políticas que se poderia citar afim de comprovar o fracasso do governo do PT de Lula.
Mas tenho que também pontuar algo tão grave quanto a irresponsabilidade daqueles que governam o Brasil: a estagnação da luta de classe no país. Ainda incapaz de ser medida, certamente esse elemento deixará suas marcas ao longo de muitos anos. Está estagnação foi o resultado da tentativa de conciliar interesses antagônicos.
A estagnação também é percebida em diversos movimentos sociais, e em lutadores que de alguma forma contribuíram na construção do PT. Acompanhamos um período de estagnação nas ocupações de terras no Brasil parte atribuída a dificuldade de mobilização, a dificuldade de avanço da Via Campesina e principalmente do MST nas áreas urbanas onde vivem a maior parte da população brasileira, vítimas da pobreza generalizada que nos assola, a qual as políticas assistencialistas anestesiam o povo sem o compromisso de fortalecer os sujeitos históricos. A possibilidade de avançar para as cidades esbarra ainda numa grave e complicada situação interna do movimento/ou de suas lideranças de não conseguirem compreender os sujeitos sociais que vivem nas cidades e por escolha, necessidade e perspectivas vem por algum instante a integrar-se a organicidade do MST. Estás lideranças ou possíveis lideranças que apesar das diferenças em analisar e agir frente as investidas do capital, possuem caráter e certas clareza teóricas e praticas socialistas, são e vem sendo vitimas de discriminação a partir de um certo sentimento de posse de muitos membros-fundadores do movimento, impedindo que muitos destes possam dentro das diferenças construir um MST capaz de superar seus desafios. Isto sem duvida é um dos itens que terá de ser debatido, cedo ou tarde.
Mas não se resume às dificuldades de uma nova conjuntura, mas também de um certo compromisso com o PT, com o governo e com Lula que estagnou e vem estagnando certos movimentos e lideranças populares. No caso do MST, mesmo sem a ampliação do debate sobre a reforma agrária, muitos fazem a política do “menos pior”, se contentam com as migalhas na área técnica provindas pelo INCRA e as esporádicas desapropriações em terras devolutas, frutos dos focos de ocupações que continuam a acontecer. Isto vem sendo o grande avanço que muitos vem declarando ter ocorrido neste governo.
Somado a isso, vem a tona o perigo da criminalização dos movimentos sociais. O clima de despolitização ocasionado, por um lado, pelas políticas assistencialistas, que na prática atuam na desorganização dos movimentos sociais, e, por outro, pela acomodação de lideranças que acreditam que a política de migalhas representa um "avanço", acaba por gerar o clima mais favorável à criminalização dos movimentos. A cooptação de lideranças desarma os movimentos sociais em seu momento mais crítico, levando-o à acomodação e descaracterização. Se a direita ainda não conseguiu impor aos movimentos a criminalização total das ocupações de terra, o desarmamento de lideranças que, veladamente, apostam no debate eleitoral sob o ponto de vista do "menos pior" (Dilma), leva os movimentos sociais a um recuo total, a posições inferiores aquelas obtidas na era FHC. Que espécie de avanço é esse que implica na diminuição da liberdade política?
São essas as razões que me levam a discutir, fraternalmente, com todos os militantes do MST Santa Catarina o apoio à pré-candidatura do companheiro Plínio de Arruda Sampaio pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). O companheiro Plínio, além de presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária, conviveu com todos os momentos do ciclo político que lançou as bases para a construção dos principais movimentos sociais do país. Além de fazer um balanço crítico desses momentos, apontando as debilidades mas também as virtudes, a candidatura de Plínio retoma o vincula entre o pleito eleitoral e a organização dos movimentos sociais. Lançando os problemas e desafios do PSOL, MST, UNE, Frente de Esquerda ou seja aqueles que ainda possuem caráter socialista, num país arrasado pelo capital.
Plínio esteve sempre na linha de frente do debate a respeito da criminalização dos movimentos sociais. Desde sua participação no Tribunal Popular até em seus artigos e entrevistas Plínio mostra claramente, sem tergiversar, de que lado está, encarando a questão da criminalização como fundamental de ser pautada em um projeto eleitoral. Projeto eleitoral calcado no avanço dos movimentos sociais e na perspectiva de um Brasil Socialista, de uma reforma agrária autenticamente popular. Enquanto o presidente Lula e até lideranças notórias do MST buscavam desvincular-se da ocupação legítima da fazenda da CUTRALE, Plínio foi o único que teve coragem política de expor na Folha de São Paulo que, ao invés de 7 mil pés de laranja transgênicos, deveriam ser destruídos 70 mil, demonstrando seu apoio à ocupação. Não por radicalismo verbal, mas por entender que um projeto eleitoral que acumule no sentido do socialismo deve declarar abertamente seu apoio aos movimentos sociais combativos e a necessidade de se romper as cercas dos latifúndios.
Precisamos neste momento de crise generalizada da esquerda, reorganiza-la, está reorganização será com aqueles que apesar de todas as dificuldades e contradições, estão conseguindo supera-las, sem comprometer a luta entre as classes como vem fazendo o Lulo-petismo. Construir um programa que seja para além das eleições é o desafio de todos nós, um programa que resgate as bandeiras históricas dos trabalhadores e seus aliados como diminuição da jornada de trabalho, desapropriação das terras improdutivas e que não cumprem a função social, nem possuem responsabilidade com a soberania alimentar da população brasileira, assim como trabalho digno, saúde e educação pública e humana com acesso a todos e socialização das riquezas de um país rico e desigual. Estás pautas não será alcançada nem com apoios no candidato “menos pior” de Lula, nem com a indiferença frente as eleições, mas sim ocupando os espaços, expondo um programa e realizando as lutas diária de todos nós.
São essas razões, da rejeição da polarização Dilma e Serra, polarização despolitizada, que lanço ao debate o nome do companheiro Plínio e das candidaturas socialistas que serão lançadas em todo o país pela Frente de Esquerda (PSOL, PSTU e PCB), dispostos a construir conjuntamente com todos os socialistas este novo programa. Por isso e também porque acredito num Brasil Socialista e na capacidade do MST de ser o fio condutor desta nova reviravolta da esquerda que lanço está carta, mesmo podendo ser mal compreendido, por outro lado não poderei calar-me frente o fosso cada vez mais fundo que estamos a nos banhar.
Espero ainda que está, seja lida em todas as instancias da organicidade do movimento no Estado seja eles em núcleos dos acampamentos, assentamentos, setores e na própria direção estadual.
Saudações Socialistas,
Willian Luiz da Conceição
Militante do Partido Socialismo e Liberdade em Santa Catarina (PSOL) e Colaborador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST/SC).
Aos camaradas do MST Santa Catarina,
Analisando a conjuntura nacional em meio a sua complexidade, agravada por estarmos às portas de mais um pleito eleitoral, apesar de não decorrer meramente por ser ano eleitoral, mas também pela desorientação, conformismo, frustração e “incapacidade” da esquerda de construir um novo projeto que aponte para o socialismo no Brasil, que venho dialogar e expor certos anseios em forma de desabafo e reflexão aos camaradas do MST de Santa Catarina.
É importante neste momento realizar uma análise histórica e de conjuntura que justifique uma nova tática. Muitos camaradas vêm discutindo o projeto original do PT, sua desvirtuação e a culminação de um longo processo político na eleição de 2002.
Em linhas gerais, é possível dizer que o PT nasceu da crítica ao antigo PCB e suas teses que indicavam uma pretensa “burguesia progressista”, ficção que a própria história deu cabo, mas também sem ver qualquer alternativa no trabalhismo ou em qualquer espécie de social-democracia, na humanização do capitalismo ou mera diminuição de suas desigualdades sem sua superação.
A prática negativa do PT indicava uma profunda relação com as bases dentro de suas instâncias, na organização popular nas lutas cotidianas, na criação de uma cultura classista e no apontamento de um socialismo democrático. O mesmo processo político que criou o PT também criou a CUT, o MST e a refundação da UNE. Todos esses agentes políticos apostavam no protagonismo da classe trabalhadora, reforçando a máxima segundo a qual "A emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora”.
Esse momento da história também tinha clareza quanto ao papel do pleito eleitoral e do caráter da participação das organizações populares nas eleições. O pleito servia para mobilizar os trabalhadores, denunciar as mazelas incuráveis do capitalismo e construir na consciência dos trabalhadores a ideia do socialismo. Por várias razões as eleições passaram a ser encaradas de modo diferente: servia a manutenção de estruturas do Estado que garantiam o funcionamento do PT e, ocasionalmente, ajudavam na melhoria da vida dos trabalhadores.
A eleição de 2002 serviu para deixar cristalinamente claro a mudança do projeto político do PT, que se processava, cada vez mais à direita, com avanços e recuos, desde sua fundação. O projeto de Lula não significou nenhum avanço rumo ao socialismo. A vitória eleitoral demonstrou a incapacidade de modificar a lógica e a estrutura social, econômica e política que sempre reinou desde a invasão européia neste território por dentro do Estado, por seu ganho progressivo e continuado. Ao contrário, mostrou apenas uma descaracterização do seu projeto inicial.
Este país não se modificou com a vitória de Lula a presidência da republica, o que vimos desde em tão é a manutenção e o reforço das políticas neoliberais. Da falta de uma política séria que resolva o déficit habitacional, que chega próximo de 9 milhões de residências, além da falta de emprego digno (aumento das terceirizações e desqualificação do trabalho), avanço das multinacionais, da degradação do meio ambiente, da corrupção, da utilização das forças armadas na destruição da soberania de outros povos, das mortes no campo brasileiro e da estagnação da reforma agrária entre outras políticas que se poderia citar afim de comprovar o fracasso do governo do PT de Lula.
Mas tenho que também pontuar algo tão grave quanto a irresponsabilidade daqueles que governam o Brasil: a estagnação da luta de classe no país. Ainda incapaz de ser medida, certamente esse elemento deixará suas marcas ao longo de muitos anos. Está estagnação foi o resultado da tentativa de conciliar interesses antagônicos.
A estagnação também é percebida em diversos movimentos sociais, e em lutadores que de alguma forma contribuíram na construção do PT. Acompanhamos um período de estagnação nas ocupações de terras no Brasil parte atribuída a dificuldade de mobilização, a dificuldade de avanço da Via Campesina e principalmente do MST nas áreas urbanas onde vivem a maior parte da população brasileira, vítimas da pobreza generalizada que nos assola, a qual as políticas assistencialistas anestesiam o povo sem o compromisso de fortalecer os sujeitos históricos. A possibilidade de avançar para as cidades esbarra ainda numa grave e complicada situação interna do movimento/ou de suas lideranças de não conseguirem compreender os sujeitos sociais que vivem nas cidades e por escolha, necessidade e perspectivas vem por algum instante a integrar-se a organicidade do MST. Estás lideranças ou possíveis lideranças que apesar das diferenças em analisar e agir frente as investidas do capital, possuem caráter e certas clareza teóricas e praticas socialistas, são e vem sendo vitimas de discriminação a partir de um certo sentimento de posse de muitos membros-fundadores do movimento, impedindo que muitos destes possam dentro das diferenças construir um MST capaz de superar seus desafios. Isto sem duvida é um dos itens que terá de ser debatido, cedo ou tarde.
Mas não se resume às dificuldades de uma nova conjuntura, mas também de um certo compromisso com o PT, com o governo e com Lula que estagnou e vem estagnando certos movimentos e lideranças populares. No caso do MST, mesmo sem a ampliação do debate sobre a reforma agrária, muitos fazem a política do “menos pior”, se contentam com as migalhas na área técnica provindas pelo INCRA e as esporádicas desapropriações em terras devolutas, frutos dos focos de ocupações que continuam a acontecer. Isto vem sendo o grande avanço que muitos vem declarando ter ocorrido neste governo.
Somado a isso, vem a tona o perigo da criminalização dos movimentos sociais. O clima de despolitização ocasionado, por um lado, pelas políticas assistencialistas, que na prática atuam na desorganização dos movimentos sociais, e, por outro, pela acomodação de lideranças que acreditam que a política de migalhas representa um "avanço", acaba por gerar o clima mais favorável à criminalização dos movimentos. A cooptação de lideranças desarma os movimentos sociais em seu momento mais crítico, levando-o à acomodação e descaracterização. Se a direita ainda não conseguiu impor aos movimentos a criminalização total das ocupações de terra, o desarmamento de lideranças que, veladamente, apostam no debate eleitoral sob o ponto de vista do "menos pior" (Dilma), leva os movimentos sociais a um recuo total, a posições inferiores aquelas obtidas na era FHC. Que espécie de avanço é esse que implica na diminuição da liberdade política?
São essas as razões que me levam a discutir, fraternalmente, com todos os militantes do MST Santa Catarina o apoio à pré-candidatura do companheiro Plínio de Arruda Sampaio pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). O companheiro Plínio, além de presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária, conviveu com todos os momentos do ciclo político que lançou as bases para a construção dos principais movimentos sociais do país. Além de fazer um balanço crítico desses momentos, apontando as debilidades mas também as virtudes, a candidatura de Plínio retoma o vincula entre o pleito eleitoral e a organização dos movimentos sociais. Lançando os problemas e desafios do PSOL, MST, UNE, Frente de Esquerda ou seja aqueles que ainda possuem caráter socialista, num país arrasado pelo capital.
Plínio esteve sempre na linha de frente do debate a respeito da criminalização dos movimentos sociais. Desde sua participação no Tribunal Popular até em seus artigos e entrevistas Plínio mostra claramente, sem tergiversar, de que lado está, encarando a questão da criminalização como fundamental de ser pautada em um projeto eleitoral. Projeto eleitoral calcado no avanço dos movimentos sociais e na perspectiva de um Brasil Socialista, de uma reforma agrária autenticamente popular. Enquanto o presidente Lula e até lideranças notórias do MST buscavam desvincular-se da ocupação legítima da fazenda da CUTRALE, Plínio foi o único que teve coragem política de expor na Folha de São Paulo que, ao invés de 7 mil pés de laranja transgênicos, deveriam ser destruídos 70 mil, demonstrando seu apoio à ocupação. Não por radicalismo verbal, mas por entender que um projeto eleitoral que acumule no sentido do socialismo deve declarar abertamente seu apoio aos movimentos sociais combativos e a necessidade de se romper as cercas dos latifúndios.
Precisamos neste momento de crise generalizada da esquerda, reorganiza-la, está reorganização será com aqueles que apesar de todas as dificuldades e contradições, estão conseguindo supera-las, sem comprometer a luta entre as classes como vem fazendo o Lulo-petismo. Construir um programa que seja para além das eleições é o desafio de todos nós, um programa que resgate as bandeiras históricas dos trabalhadores e seus aliados como diminuição da jornada de trabalho, desapropriação das terras improdutivas e que não cumprem a função social, nem possuem responsabilidade com a soberania alimentar da população brasileira, assim como trabalho digno, saúde e educação pública e humana com acesso a todos e socialização das riquezas de um país rico e desigual. Estás pautas não será alcançada nem com apoios no candidato “menos pior” de Lula, nem com a indiferença frente as eleições, mas sim ocupando os espaços, expondo um programa e realizando as lutas diária de todos nós.
São essas razões, da rejeição da polarização Dilma e Serra, polarização despolitizada, que lanço ao debate o nome do companheiro Plínio e das candidaturas socialistas que serão lançadas em todo o país pela Frente de Esquerda (PSOL, PSTU e PCB), dispostos a construir conjuntamente com todos os socialistas este novo programa. Por isso e também porque acredito num Brasil Socialista e na capacidade do MST de ser o fio condutor desta nova reviravolta da esquerda que lanço está carta, mesmo podendo ser mal compreendido, por outro lado não poderei calar-me frente o fosso cada vez mais fundo que estamos a nos banhar.
Espero ainda que está, seja lida em todas as instancias da organicidade do movimento no Estado seja eles em núcleos dos acampamentos, assentamentos, setores e na própria direção estadual.
Saudações Socialistas,
Willian Luiz da Conceição
Militante do Partido Socialismo e Liberdade em Santa Catarina (PSOL) e Colaborador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST/SC).
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Apologia à barbárie
Neste artigo, Carolina Raquel da Veiga comenta as barbaridades ditas pelo comentarista da RBS, Luiz Carlos Prates, em relação aos 30 anos da Novembrada. Antes de ler, recomendamos que assista ao vídeo com o comentário de Prates clicando aqui.
Carolina Raquel da Veiga*
Estou postando esse vídeo, mas sinto vergonha em fazê-lo. Já o assisti há algum tempo e desde então, seu conteúdo me incomoda.Como pode um comentarista de um dos principais telejornais de Santa Catarina, da emissora mais assistida do estado defender publicamente, justo no dia em que se comemora 30 anos de uma das maiores manifestações contra a opressão militar já ocorrida em Santa Catarina, uma época de violências contra a sociedade?
A Novembrada ficou conhecida como o dia em que Florianópolis enfrentou a Ditadura Militar. Período esse que para o comentarista da RBS, Luiz Carlos Prates, proporcionou o maior crescimento nacional com estradas rasgando o Brasil, universidades multiplicadas e ciência e tecnologia começando para valer.
Em 30 de novembro de 1979, milhares de pessoas tomaram as ruas centrais da capital para manifestar o repúdio ao regime opressor, resultando na prisão de sete estudantes universitários da Universidade Federal de Santa Catarina. O estopim das manifestações organizadas pelo Diretório Central dos Estudantes da UFSC foi a visita do general Figueiredo, ditador da vez. João Baptista Figueiredo veio a Santa Catarina para participar das homenagens ao Marechal Floriano Peixoto, que governou com mãos de ferro a antiga Desterro – hoje Florianópolis (cidade de Floriano) no final do século XIX, aprisionando contrários ao seu governo.
Prates afirma que a “Novembrada foi uma reação de perdedores, de fracassados” e que “o general Figueiredo nos ensinou o caminho da verdadeira luta e democracia”. Será que o grande reacionário jornalista Luiz Carlos Prates nunca leu o livro: “Brasil: Nunca Mais”, que traz depoimento de vítimas torturadas por militares durante o período de ferro? Segue trecho do livro:
“A estudante Dulce Chaves Pandolfi, 24 anos, foi obrigada também a servir de cobaia no quartel da Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, de acordo com petição anexada aos autos em 1970:
(…) Na Polícia do Exército, a supte. foi submetida a espancamento inteiramente despida, bem como a choques elétricos e outros suplícios, como o “pau-de-arara”. Depois conduzida à cela, onde foi assistida por médico, a supte foi, após algum tempo novamente seviciada com requintes de crueldades numa demonstração de como deveria ser feita a tortura; (…)
Em seu depoimento na Justiça Militar, Dulce reitera a denúncia: … que no dia 14 de outubro foi retirada da cela e levada onde estavam presentes mais de vinte oficiais e fizeram demonstração de tortura com a depoente; (…)”
Este é apenas um dos vários relatos do livro, que incluem mortes nas prisões militares, sequestros e desaparecimento de presos políticos. As formas e os instrumentos praticados na tortura também estão descritos com riqueza de detalhes, como a “Cadeira do Dragão”. Segue trecho:
“A ‘Cadeira do Dragão’ de São Paulo
(…) sentou-se numa cadeira conhecida como cadeira do dragão, que é uma cadeira extremamente pesada, cujo assento é de zinco, e que na parte posterior tem uma proeminência para ser introduzido um dos terminais da máquina de choque chamado magneto; que, além disso, a cadeira apresentava uma travessa de madeira que empurrava as suas pernas para trás, de modo que a cada espasmo de descarga as suas pernas batessem na travessa citada, provocando ferimentos profundos (…)
(…) também recebeu choques elétricos, cadeira do ‘dragão’ que é uma cadeira elétrica de alumínio, tudo isso visando obtenção de suas declarações (…)
(…) despida brutalmente pelos policiais, fui sentada na ‘cadeira do dragão’, sobre uma placa metálica, pés e mãos amarrados, fios elétricos ligados ao corpo tocando língua, ouvidos, olhos, pulsos, seios e órgãos genitais. (…)”.
Após assistir o vídeo e ouvir as frases: “desde quando fomos proibidos de ir e vir” e “o Brasil andou para trás de lá para cá”, conclui: a liberdade existia para aqueles que foram cúmplices dos crimes aplicados contra aqueles que foram assassinados, espancados e seqüestrados apenas por pensar diferente e por lutarem por um país mais justo e igualitário. Quanto ao crescimento da economia brasileira, ele se deu graças ao crescimento das desigualdades sociais, do número de pobres, pela preferência ao ensino técnico, especializado em construir operários para as multinacionais que exploram ainda hoje o país, em detrimento ao social. Crescimento esse onde o ensino de qualidade se transformou em artigo de luxo e as universidades públicas, que Prates com tanto orgulho diz que se multiplicaram, transformaram-se em escolas que só os filhos da grande burguesia podiam frequentar… Esta realidade continua se repetindo.
De lá para cá o Brasil não andou para trás. Casos de corrupção foram revelados justamente porque jornalistas finalmente puderam exercer sua profissão com um pouco mais de liberdade. À época, seriam torturados e exilados, como também aconteceu com aqueles que desejavam gritar as mazelas da população e as injustiças da Ditadura Militar através da arte, da poesia e da música. De lá para cá o Brasil vem construindo sua liberdade, infelizmente agora cerceada pela “Ditadura do capital e da Globalização”.
João Batista Figueiredo não foi um herói, como disse Prates, assim como nenhum dos demais comandantes militares que tomaram o Governo Federal. Mas sim, mais um líder da quadrilha. Apesar de conceder a anistia aos exilados políticos pelo AI-5, Figueiredo perdoou os crimes políticos exercidos pelos órgãos da segurança nacional: as torturas, assassinatos e sequestros cometidos pelos militares foram perdoados.
Apesar da promessa de manter a “mão estendida em conciliação” e de jurar “fazer deste país uma democracia”, durante os seis anos em que comandou o país, a dívida externa nacional ultrapassou os 100 milhões de dólares e os juros alavancaram de 45% ao mês a 230% ao longo de todo o período. Foi substituído por Tancredo Neves, eleito por “eleições diretas”, que não chegou a governar, sendo substituído pelo vice José Sarney, que dispensa comentários.
Algumas das frases daquele que para Prates “ensinou o caminho da verdadeira luta e democracia” ao povo brasileiro:
“Prefiro cheiro de cavalo do que cheiro de povo”.
“AI-5? Quem é esse menino?”.
“Uma coisa que nunca entendi é porque todo artista, esse tal de Caetano Veloso por exemplo, tem de ser dessa tal de esquerda”.
Luiz Carlos Prates e a emissora que ele representa devem desculpas à população. Às centenas de homens e mulheres que tiveram suas vidas marcadas pela ditadura militar. Às mulheres que foram violentadas, que sofreram abortos, que ficaram viúvas, que perderam filhos, que perderam a esperança e vivem hoje com medo do desconhecido. Às crianças órfãs. Aos homens torturados e violentados. Àqueles expulsos do país, que sofreram com a saudade e hostilidade do exterior. Devem desculpas aos familiares dos mortos e desaparecidos, famílias estas que ainda esperam seus entes queridos entrarem pela porta de casa.
RBS e Prates, o Brasil merece desculpas!
Carolina Raquel da Veiga é estudante de jornalismo, membro da diretoria da Associação Arco Íris de Joinville e militante do PSOL.
Carolina Raquel da Veiga*
Estou postando esse vídeo, mas sinto vergonha em fazê-lo. Já o assisti há algum tempo e desde então, seu conteúdo me incomoda.Como pode um comentarista de um dos principais telejornais de Santa Catarina, da emissora mais assistida do estado defender publicamente, justo no dia em que se comemora 30 anos de uma das maiores manifestações contra a opressão militar já ocorrida em Santa Catarina, uma época de violências contra a sociedade?
A Novembrada ficou conhecida como o dia em que Florianópolis enfrentou a Ditadura Militar. Período esse que para o comentarista da RBS, Luiz Carlos Prates, proporcionou o maior crescimento nacional com estradas rasgando o Brasil, universidades multiplicadas e ciência e tecnologia começando para valer.
Em 30 de novembro de 1979, milhares de pessoas tomaram as ruas centrais da capital para manifestar o repúdio ao regime opressor, resultando na prisão de sete estudantes universitários da Universidade Federal de Santa Catarina. O estopim das manifestações organizadas pelo Diretório Central dos Estudantes da UFSC foi a visita do general Figueiredo, ditador da vez. João Baptista Figueiredo veio a Santa Catarina para participar das homenagens ao Marechal Floriano Peixoto, que governou com mãos de ferro a antiga Desterro – hoje Florianópolis (cidade de Floriano) no final do século XIX, aprisionando contrários ao seu governo.
Prates afirma que a “Novembrada foi uma reação de perdedores, de fracassados” e que “o general Figueiredo nos ensinou o caminho da verdadeira luta e democracia”. Será que o grande reacionário jornalista Luiz Carlos Prates nunca leu o livro: “Brasil: Nunca Mais”, que traz depoimento de vítimas torturadas por militares durante o período de ferro? Segue trecho do livro:
“A estudante Dulce Chaves Pandolfi, 24 anos, foi obrigada também a servir de cobaia no quartel da Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, de acordo com petição anexada aos autos em 1970:
(…) Na Polícia do Exército, a supte. foi submetida a espancamento inteiramente despida, bem como a choques elétricos e outros suplícios, como o “pau-de-arara”. Depois conduzida à cela, onde foi assistida por médico, a supte foi, após algum tempo novamente seviciada com requintes de crueldades numa demonstração de como deveria ser feita a tortura; (…)
Em seu depoimento na Justiça Militar, Dulce reitera a denúncia: … que no dia 14 de outubro foi retirada da cela e levada onde estavam presentes mais de vinte oficiais e fizeram demonstração de tortura com a depoente; (…)”
Este é apenas um dos vários relatos do livro, que incluem mortes nas prisões militares, sequestros e desaparecimento de presos políticos. As formas e os instrumentos praticados na tortura também estão descritos com riqueza de detalhes, como a “Cadeira do Dragão”. Segue trecho:
“A ‘Cadeira do Dragão’ de São Paulo
(…) sentou-se numa cadeira conhecida como cadeira do dragão, que é uma cadeira extremamente pesada, cujo assento é de zinco, e que na parte posterior tem uma proeminência para ser introduzido um dos terminais da máquina de choque chamado magneto; que, além disso, a cadeira apresentava uma travessa de madeira que empurrava as suas pernas para trás, de modo que a cada espasmo de descarga as suas pernas batessem na travessa citada, provocando ferimentos profundos (…)
(…) também recebeu choques elétricos, cadeira do ‘dragão’ que é uma cadeira elétrica de alumínio, tudo isso visando obtenção de suas declarações (…)
(…) despida brutalmente pelos policiais, fui sentada na ‘cadeira do dragão’, sobre uma placa metálica, pés e mãos amarrados, fios elétricos ligados ao corpo tocando língua, ouvidos, olhos, pulsos, seios e órgãos genitais. (…)”.
Após assistir o vídeo e ouvir as frases: “desde quando fomos proibidos de ir e vir” e “o Brasil andou para trás de lá para cá”, conclui: a liberdade existia para aqueles que foram cúmplices dos crimes aplicados contra aqueles que foram assassinados, espancados e seqüestrados apenas por pensar diferente e por lutarem por um país mais justo e igualitário. Quanto ao crescimento da economia brasileira, ele se deu graças ao crescimento das desigualdades sociais, do número de pobres, pela preferência ao ensino técnico, especializado em construir operários para as multinacionais que exploram ainda hoje o país, em detrimento ao social. Crescimento esse onde o ensino de qualidade se transformou em artigo de luxo e as universidades públicas, que Prates com tanto orgulho diz que se multiplicaram, transformaram-se em escolas que só os filhos da grande burguesia podiam frequentar… Esta realidade continua se repetindo.
De lá para cá o Brasil não andou para trás. Casos de corrupção foram revelados justamente porque jornalistas finalmente puderam exercer sua profissão com um pouco mais de liberdade. À época, seriam torturados e exilados, como também aconteceu com aqueles que desejavam gritar as mazelas da população e as injustiças da Ditadura Militar através da arte, da poesia e da música. De lá para cá o Brasil vem construindo sua liberdade, infelizmente agora cerceada pela “Ditadura do capital e da Globalização”.
João Batista Figueiredo não foi um herói, como disse Prates, assim como nenhum dos demais comandantes militares que tomaram o Governo Federal. Mas sim, mais um líder da quadrilha. Apesar de conceder a anistia aos exilados políticos pelo AI-5, Figueiredo perdoou os crimes políticos exercidos pelos órgãos da segurança nacional: as torturas, assassinatos e sequestros cometidos pelos militares foram perdoados.
Apesar da promessa de manter a “mão estendida em conciliação” e de jurar “fazer deste país uma democracia”, durante os seis anos em que comandou o país, a dívida externa nacional ultrapassou os 100 milhões de dólares e os juros alavancaram de 45% ao mês a 230% ao longo de todo o período. Foi substituído por Tancredo Neves, eleito por “eleições diretas”, que não chegou a governar, sendo substituído pelo vice José Sarney, que dispensa comentários.
Algumas das frases daquele que para Prates “ensinou o caminho da verdadeira luta e democracia” ao povo brasileiro:
“Prefiro cheiro de cavalo do que cheiro de povo”.
“AI-5? Quem é esse menino?”.
“Uma coisa que nunca entendi é porque todo artista, esse tal de Caetano Veloso por exemplo, tem de ser dessa tal de esquerda”.
Luiz Carlos Prates e a emissora que ele representa devem desculpas à população. Às centenas de homens e mulheres que tiveram suas vidas marcadas pela ditadura militar. Às mulheres que foram violentadas, que sofreram abortos, que ficaram viúvas, que perderam filhos, que perderam a esperança e vivem hoje com medo do desconhecido. Às crianças órfãs. Aos homens torturados e violentados. Àqueles expulsos do país, que sofreram com a saudade e hostilidade do exterior. Devem desculpas aos familiares dos mortos e desaparecidos, famílias estas que ainda esperam seus entes queridos entrarem pela porta de casa.
RBS e Prates, o Brasil merece desculpas!
Carolina Raquel da Veiga é estudante de jornalismo, membro da diretoria da Associação Arco Íris de Joinville e militante do PSOL.
Os limites da legalidade
Leonel Camasão*
Uma onda criminosa assolava o interior do Estado da Bahia há pouco mais de 300 anos. Os governantes estavam horrorizados com a desordem social causada pelo bando. Os crimes e as fugas cometidas pelo líder dos bandidos eram tão numerosos e lendários que seu autor ganhou a fama de “imortal”.
Obviamente, o “meliante” não era imortal. Ele foi decapitado, e sua cabeça, exposta em praça pública para dar o exemplo. Seu nome era Zumbi dos Palmares, líder negro que cometeu o crime de lutar pelo fim da escravidão.
Hoje, três séculos depois, qualquer um concluí que a escravidão foi um crime contra a humanidade. A resistência “ilegal” foi amplamente necessária para o fim de tal regime. Assim foi também na ditadura militar.
Nos últimos 25 anos, temos assistido prisões e até assassinatos dos membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Diversos setores do judiciário, da sociedade e da imprensa os consideram criminosos perigosíssimos, apesar de lutarem por um motivo justo: a ampla e igualitária distribuição das terras do país.
Hoje, no Brasil, 1% dos proprietários são donos de 46% das terras privadas do País.. O Índice de Gini, usado para medir a concentração de terra, confirma os dados. Em uma escala de zero a um, onde zero é a distribuição igualitária da terra e um é a concentração total, atingimos a desonrada marca de 0,872, nos tornando o país com a maior concentração de terras do mundo.
Será possível, portanto, conseguir a reforma agrária dentro da “legalidade”? Foi possível abolir a escravatura sem que milhares de negros escravos desrespeitassem as leis da época? Vemos que a legalidade tem limites e não está aí para fazer justiça, mas para impedir as mudanças que o país precisa.
Fomos o último país do mundo a abolir a escravidão. E provavelmente seremos o último a fazer a reforma agrária. Temos a esperança que, no futuro, olhem para nossa época e também considerem o latifúndio – assim como a escravidão – um crime contra a humanidade.
Leonel Camasão é jornalista e membro da Executiva Estadual do PSOL-SC
Uma onda criminosa assolava o interior do Estado da Bahia há pouco mais de 300 anos. Os governantes estavam horrorizados com a desordem social causada pelo bando. Os crimes e as fugas cometidas pelo líder dos bandidos eram tão numerosos e lendários que seu autor ganhou a fama de “imortal”.
Obviamente, o “meliante” não era imortal. Ele foi decapitado, e sua cabeça, exposta em praça pública para dar o exemplo. Seu nome era Zumbi dos Palmares, líder negro que cometeu o crime de lutar pelo fim da escravidão.
Hoje, três séculos depois, qualquer um concluí que a escravidão foi um crime contra a humanidade. A resistência “ilegal” foi amplamente necessária para o fim de tal regime. Assim foi também na ditadura militar.
Nos últimos 25 anos, temos assistido prisões e até assassinatos dos membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Diversos setores do judiciário, da sociedade e da imprensa os consideram criminosos perigosíssimos, apesar de lutarem por um motivo justo: a ampla e igualitária distribuição das terras do país.
Hoje, no Brasil, 1% dos proprietários são donos de 46% das terras privadas do País.. O Índice de Gini, usado para medir a concentração de terra, confirma os dados. Em uma escala de zero a um, onde zero é a distribuição igualitária da terra e um é a concentração total, atingimos a desonrada marca de 0,872, nos tornando o país com a maior concentração de terras do mundo.
Será possível, portanto, conseguir a reforma agrária dentro da “legalidade”? Foi possível abolir a escravatura sem que milhares de negros escravos desrespeitassem as leis da época? Vemos que a legalidade tem limites e não está aí para fazer justiça, mas para impedir as mudanças que o país precisa.
Fomos o último país do mundo a abolir a escravidão. E provavelmente seremos o último a fazer a reforma agrária. Temos a esperança que, no futuro, olhem para nossa época e também considerem o latifúndio – assim como a escravidão – um crime contra a humanidade.
Leonel Camasão é jornalista e membro da Executiva Estadual do PSOL-SC
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